quinta-feira, 12 de outubro de 2017



Sábado, 30 de setembro de 2017


Tem dias. Tem dias que acordamos só por acordar, com o simples e único objetivo de conseguir cumprir no mínimo as próprias responsabilidades. Hoje, como mais um típico sábado rio-grandino de chuva cansada, a LES fez-se presente, a princípio como uma preocupação, afinal, a anatomia está consumindo cada pedaço do aluno do primeiro ano de uma forma bem triste e responsável, e ainda teria que ir ver nossos vovôs e ainda deveria levar o melhor de mim, um riso que estava guardado por dias que para eles “seria bom” ser exposto.
Mas logo que o sol timidamente chegou a obrigação de ter a atividade prática neste dia pré-prova foi ficando mais leve, refletidamente este sentimento bom transcendeu aquelas janelas abertas por minhas colegas e irradiou cada espacinho daquela sala. Teve o “Seu Renato”, que mais uma vez, incansavelmente, rodeou a todos com seus elogios e até me disse “Ei, Ei, tira cá uma foto minha!”, e lá se foi mais um registro de um riso largo.
Aos poucos tudo foi se encaixando, nós nos aconchegamos nas cadeiras de camurça vermelha e tecido branco, nossos vovôs e vovós ao nosso lado escolhendo o brilho de um esmalte, o desenho a ser pintado ou a cor a ser escolhida. Mas isso foi só um detalhe que peguei naquelas lentes, afinal, na hora que a música soou de um piano parece que tudo ganhou vida; eu consegui sentir uma coisa boa, típica de saudade de uma infância e parei para pensar no quanto aquilo também influenciava cada um ali presente, quem tocou, quem pediu para aprender ou pra quem só falou: “vou tentar, mas só sei o dó-ré-mi-fá-fá-fá”, o som daquelas teclas fez o dia dançar.
Quando pensei que já havia ganhado meu momento registrando aqueles olhares e abraços ganhei o principal presente do dia: Dona Mariele. Possivelmente era realmente este o nome daquela senhora com mãos macias e unhas “firmes e fortes”, como as descreveu. Fiquei ali, tão encantada com seu riso que me perdi nos dados clichês de “nome, o porque está ali e o que fazer da vida”. Ela foi além. No meu levar de conversa - assumidamente não sei como sempre chego nesse ponto com algumas pessoas- ela se abriu me ensinando sobre a vida, em suas palavras: “filha, tenho câncer e não desisti da minha vida, tenho motivos pra viver”.
Não perguntei diretamente seus motivos, ela mesmo os descreveu no decorrer do assunto: três homens e uma mulher, que pouco a visita, pois “cada tem sua vida, né filha, faz parte…” mas ela pouco se importa com isso, pois seu maior orgulho é tê-los, simplesmente, tê-los. Nada além. Existe amor mais bonito que esse?. Amor que existe pelo simples fato de carinho, de ter, de saber que está bem. Sinceramente acho que este amor é falho hoje em dia. Quando, ilusoriamente, achei que já tinha absorvido toda aquela boa energia, ela se vira com os olhos sorridentes, e me agradece pelas unhas esmaltadas à um tom “clássico” e já amarra um outro assunto de como ali fez-se sua casa: “Dani, tenho meu quarto, minhas coisas, minha vidinha e melhor que isso, sempre me dei bem com todo mundo, acho que é porque eu evito ver a vida com problemas”, neste momento eu estava concentrada em seu sorriso que descreveu suas palavras e só conseguia pensar “Daniely, as pessoas ainda valem a pena”.
Ao findar das quinze horas, a correria se alastra com o aviso da “Hora do café”, foi beijos jogados ao vento, mãos apertadas, boa palavras e energias desejadas. A senhora da mão macia e do riso largo, que tem seu nome variando entre Mariele e Marineide, terminou nossa conexão da seguinte forma: “vocês fazem a rotina mudar, não é encheção de saco, pelo contrário, se você me diz que aprendeu comigo hoje com meus 78 anos, eu lhe digo que aprendemos sempre com vocês, seja com 21 ou 78 anos, o aprendizado é constante”, apertei sua mão, agradeci por aquilo e ainda me pego agradecendo.
Na despedida, ainda encontro o nosso castelhano, “Seu José”, que me avisou que sentiu saudade de nós, que da próxima vez estará ali na salinha com a gente, pediu até desculpas porque estava dormindo, e me disse tchau dizendo “olha, as obras aqui estão devagar, acredita?” e saltou ao ar mais um riso largo. E assim, ao fechar os portões da “Casa das Flores” eu respirei fundo e agradeci pelo dia, pela música e principalmente, pelos diversos risos vistos nos olhos e nos lábios dos meus amigos e dos nossos vovôs.
Um dia embebido de riso largo e da função que mais amo fazer, a de escutar. Que dia, meu caros, que dia.


Daniely Poiati.

[Daniely é extensionista da LES desde março de 2017 e está cursando o primeiro ano do curso de Medicina. Aos sábados, ela visita os idosos do asilo oferecendo ouvidos atentos e falas carinhosas].



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Este ano de 2017 começou muito especial para a LES. O projeto "Health Education League" (Liga de Educação em Saúde), submetido pela extensionista Mayara Floss, vai receber o prêmio "Student Project For Health" na conferência de Responsabilidade Social que será realizada em abril deste ano, em Hammamet, na Tunísia. O trabalho foi um dos selecionados num concurso promovido pela "The Network: Towards Unity for Health - TUFH" (A Rede: Em busca da Unidade na Saúde, em tradução livre) e pela "Foundation for Advancement of International Medical Education and Research - FAIMER" ( Fundação para o Avanço da Educação Médica e pesquisa, em tradução livre). Os vencedores serão convidados a assistir à conferência e apresentar seus projetos. Agora em seu terceiro ano, o prêmio reconhece projetos que promovem e contribuem com êxito para a saúde e bem-estar da comunidade, e estava aberto a todos os estudantes de graduação e pós-graduação. Dos 14 trabalhos selecionados de todo o mundo, a LES foi o único projeto brasileiro e da América Latina. Vale lembrar que este não é um prêmio para uma acadêmica, é um prêmio para a comunidade, para cada aluno que constrói a LES, para os professores apoiadores, para cada pessoa envolvida. Esperamos poder seguir acolhendo e trabalhando com empoderamento e educação popular. Este prêmio é de todos que constroem e construíram a LES! ❤ Confira o site http://www.faimer.org/news/category/network-tufh/ para mais informações.

sábado, 8 de outubro de 2016

LES apresenta: Tarde Solidária

Neste fim de semana, a Liga de Educação em saúde estará na praia do Cassino para uma ação solidária: arrecadar fundos para as atividades de formação dos extensionistas! Os ligantes estão empenhados na confecção de bolos, cookies, brigadeiros e outros doces, incluindo opções veganas. Ao final, a ideia é que toda a correria e trabalho sejam revertidos em bons frutos para custear a formação, a participação em congressos e a consolidação da Liga de Educaçao em saúde, que se dá aos poucos e a cada dia. Junto com a gente, estarão as artesãs do GAB (Grupo de Artesãs da Barra) exibindo seus produtos. Pra quem quiser participar, estaremos lá na tarde de amanhã : dia 09/10, das 15 às 18h, na Avenida Rio Grande (próximo ao hotel atlântico) - Cassino. Abraços!

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Liga de Educação em Saúde da FURG recebe premiação do Ministério da Saúde



O Ministério da Saúde divulgou o resultado final da 2ª Edição do Prêmio Victor Valla de Educação Popular em Saúde. Foram premiados os dez trabalhos mais bem avaliados nas categorias Textos Artísticos, Produção Audiovisual, Narrativas e Relatos e Pesquisas e Sistematizações. A Liga de Educação em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) recebeu o Prêmio de 9º lugar pela Produção Audiovisual e menção honrosa.

O Prêmio Victor Valla de Educação Popular em Saúde tem por objetivo apoiar e contribuir com o fortalecimento dos grupos, coletivos, movimentos populares e acadêmicos, assim como dos serviços de saúde, que desenvolvem ações de Educação Popular em Saúde. O prêmio é uma homenagem ao professor Victor Vincent Valla (1937-2009) que, em sua trajetória de militância e produção acadêmica, contribuiu com a formação de gerações de sanitaristas e com reflexões sobre os modos de viver e produzir saberes populares e suas relações com a saúde.

Em maio deste ano, a Liga participou da 22ª Conferência Mundial de Promoção da Saúde, realizada pela União Internacional de Promoção em Saúde e Educação (Uipes). O grupo promoveu uma oficina sobre Educação Popular com mais de 80 participantes.

Veja a notícia no site da FURG: http://www.furg.br/index.php?id_noticia=28446 

domingo, 29 de maio de 2016

Liga de Educação em Saúde na Conferência da UIPES 2016

Na última semana, a liga de educação em saúde participou da 22ª conferência mundial de promoção da saúde, realizada pela União Internacional de promoção em saúde e educação (UIPES), com dois banners, uma oficina e ainda com a apresentação dos vídeos da série sus, produção da ligante Mayara Floss, na mostra alternativa. Os trabalhos já nos renderam surpresas e experiências únicas. A construção da oficina resultou numa colcha de retalhos, feita com um pouquinho da experiência de cada um ali presente e que ao final foi estendida na área comum central da conferência, num trajeto intenso cheio de gente com um novo olhar sobre a promoção de saúde! Ficam os parabéns às ligantes Mayara, Nicolle e Ana Clara, que nos representaram, e a todos os outros ligantes que hoje são parte disso. Em breve publicaremos mais fotos!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Aquele senhor...

Mais de um ano se passou e ainda me lembro daquele senhor que nos olhava sempre de longe dentro do asilo. Lembro de todas as vezes em que o chamei para conversar e se juntar a nós no corredor e ele nunca desviou seus olhos do televisor imenso em que estava mergulhado, quase que hipnotizado. Quando olhava pra mim era apenas para mostrar sua indignação por eu estar lhe importunando. Acredito ter ouvido de sua boca apenas um redondo e forte “não”. Sério. Fechado. Sentado imponente no sofá, como se lá fosse seu lugar soberano. E realmente era. Qualquer som que destoasse de sua TV o fazia aumentar de forma ensurdecedora o volume do aparelho. Quando deixávamos a instituição, ele sempre estava na janela, olhando-nos, não mais com a cara embotada, mas sim com uma expressão de tranquilidade, talvez porque nós não o incomodaríamos mais naquele dia. Certa noite, quando já estávamos para fora do portão, acenei para ele, que surpreendentemente retribuiu abanando sua mão, deixando-me até hoje instigada, sem saber se nossa presença lá o fazia feliz ou se apenas era um motivo para que ele se distraísse, mesmo que essa distração fosse ruim.  Fico até hoje pensando, lembrando daquela fatídica cena que me motivou, ou pelo menos me confortou, a continuar nosso trabalho com idosos.


Eduarda Cecilia Pinguello

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Medicina Digna

    
Logo na primeira semana dentro da faculdade, me deparei com outros estudantes que, assim como eu, torciam para o sonho não se tornar banal. A Liga de Educação em Saúde (LES- FURG) foi uma grande impulsionadora de vontades, todas aquelas vontades que estavam buscando oportunidades de sair, procurar e realizar mudanças. 

Baseado em um dos nossos primeiros textos lidos - Os múltiplos sentidos da categoria “empowerment” no projeto de Promoção à Saúde,  de autoria de Sérgio Resende Carvalho – discutimos sobre como e o que significa empoderar a população, e assim como estava escrito nesse primeiro artigo, pude vivenciar na prática: Buscar garantir a participação de sujeitos na definição do seu modo de encaminhar a vida e que valorizem, no cotidiano do fazer saúde, o encontro entre profissionais e usuários e as lutas pela garantia dos direitos da cidadania.


   Adentram o consultório uma mãe e o filho, cujo desempenho escolar não era satisfatório, além dos muitos problemas em casa. Algum problema físico? Aparentemente nenhum!

   A consulta, marcada em nome do garoto começa e a médica pergunta a ele “Você sabe porque está aqui hoje?” O garoto se restringe a balançar a cabeça negativamente. A mãe então começa a falar “Bom doutora, o meu filho precisa de uma psicopedagoga e eu não consigo, na escola acham que eu sou desinteressada por ele. Mas, o meu vizinho conhece alguém que trabalha aqui na Unidade Básica de Saúde e conseguiu marcar uma consulta com especialistas, porque na verdade ninguém quer saber do problema dele.  Se a senhora for solucionar, melhor. E me consiga um atestado para o trabalho.”

   A médica olha para a mãe do garoto e diz  “Dona Ana, nenhum de vocês sabe porque marquei esta consulta, mas agora eu vou explicar. Justamente porque o seu vizinho trouxe o caso do Junior até mim e o encaminhei para os especialistas. Essa consulta é para que vocês conheçam a minha cara e saibam que eu estou com vocês.”

A mãe não conseguiu falar outra palavra que não fosse “Obrigado”.

A médica então perguntou “ E aí Junior as coisas não estão boas na escola?” O garoto continua balançando negativamente a cabeça. Ela continua “Marcamos essa consulta para você me conhecer e saber que eu, junto com a sua mãe, estou aqui para conseguir tornar a escola um lugar mais bacana pra você, tá?” O menino então sorriu.

Depois de conversar mais com o garoto, a médica se volta para a mãe e diz “ E você dona  Ana, tem feito o preventivo?” Ela explica que não, justamente por não gostar da equipe que estava realizando o exame na unidade. A médica então afirma “Bom, a partir de agora você já conhece a minha cara, já sabe bem quem eu sou, o Júnior já está encaminhado e vamos marcar dois retornos:  um para o Júnior para fazermos o acompanhamento do crescimento e vermos como foram as consultas com os especialistas e outro retorno para a senhora, para conversarmos mais sobre a situação em casa, buscando saídas e já fazermos o seu preventivo. Combinado?”

Dona Ana e Júnior saem sorrindo, bem diferente de como chegaram no consultório, além de ficarem com boas expectativas com relação ao atendimento. E a médica, satisfeita com a importância daquela consulta sem exames físicos, sem problemas físicos prévios, mas de extrema importância.

   
“O médico não me olhou nos olhos, o médico não me examinou, a consulta que durou 5 minutos, o que eu deixei de dizer, o que ele deixou de perguntar...” São coisas ainda ditas por muitas pessoas que procuram auxílio médico. Mas, de fato, existem muitas pessoas que acreditam, lutam e fazem uma Medicina DIGNA, digna para o médico e digna para o paciente.


*Ana e Junior são nomes fictícios

                                                           Abraços e lindo 2015, Mariana Codevila Buere